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Dr. Luís Joyce Moniz
Professor Catedrático na Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa.
Licenciado em Psicologia Genética na Universidade de Genebra.
Doutorado em Psicologia do Aconselhamento na Universidade da Califórnia.

1. Na sua concepção actual, como podemos definir a Dor?
Para mim, a melhor definição de dor é totalmente tautológica e inútil de um ponto de vista formal: a dor é o que cada um pensa e sente, ou sente e pensa, como sendo a dor.
É claro que esta idiossincrasia que leva à anulação do conceito coloca enormes problemas à maioria das psicologias aplicadas dirigidas precisamente para a interpretação e explicação causal de tudo e do seu contrário.
Em termos práticos, proponho uma definição operacional: a idiossincrasia da experiência da dor ocupa um contínuo dialéctico que vai do tudo somático ao tudo psicológico. A dor passa assim como um joiner muito popular, para pôr em confronto outras ontologias como corpo vs. espírito, percepção vs. significação, etc.

2. A Dor é uma experiência que deve ser vista como um todo biopsicossocial. Qual o significado desta expressão?
Historicamente, as concepções biopsicossociais foram importantes na Psicologia, na Medicina ou na Sociologia, permitindo alargar o determinismo da dor partilhado a dois (somático e psicológico) para uma partilha a três, incluindo o social.
Este último é particularmente relevante na sua asserção cultural. Ainda no mês passado estive em países cujas gentes me explicavam que a dor é um assunto religioso.
A dor será biológica, psicológica, social, religiosa, etc. Quanto mais coisas integrarem o conceito, melhor. Trata-se de um dos raríssimos exemplos em que a quantidade alimenta a qualidade. Em psicologia aplicada, face às queixas individuais de dor é conveniente que se intervenha tendo em conta a multiplicidade da determinação e da manifestação da dor.

3. Vários autores defendem que a Dor é uma forma de linguagem. Como se explica este pressuposto?
A metáfora da linguagem como super-estrutura que pode definir e operacionalizar praticamente tudo em psicologia (e não só) é, sem dúvida, muito atractiva. Não vejo nada que me oponha à dor como linguagem. Como acho que compreendo que certas religiões monoteístas digam Deus como linguagem, e não teístas digam omnisciência (e.g., nirvana) como linguagem.
Oxalá se pudesse incluir nesta linguagem, a sua expressão efectiva, em termos de palavras, gestos, máscara facial. Há três milénios, os gregos já representavam a dor pela sua expressão mais dramática.

4. O que compete ao psicólogo fazer, nas situações em que o paciente chega à consulta com Dor e a sofrer?
O sub-capítulo que escrevemos na Psicologia da Doença para cuidados de saúde (Joyce-Moniz e Barros, 2005) sobre Controlo da Dor é o único que começa com um conjunto de desenhos para introduzir o menu mais conhecido e usado de metodologias: biofeedback, relaxamento, distracção ou desatenção imaginativa, auto-sugestão por transformação do contexto, auto-sugestão por transformação da dor, auto-monitorização reactiva da intensidade da dor, programação de contingências de confronto e disputa racional das significações da dor.
Nenhuma destas serve para o paciente que chega à consulta com dor e a sofrer. A psicologia está pouco armada para fazer face a situações de urgência de problemas ditos somáticos e somatoformes como as queixas de dor.
Mas se fosse mesmo obrigado a recorrer a medidas de urgência, diria que as metodologias possíveis deveriam estar direccionadas para a auto-sugestão por meio de relaxamento muscular, respiração, imagética e/ou expressão dramática.
Toda esta acção dentro da filosofia da psicologia aplicada de que os pequenos ganhos são sempre grandes ganhos.
Grande parte da investigação que tenho orientado nestes tempos tem a ver com estes processos auto-sugestivos, por exemplo, no controlo da dor de pacientes de reumatologia e ortopedia.
A hipnose e a auto-hipnose permanecem, contudo, as minhas metodologias favoritas, para melhoramento ou resolução de situações de dor a curto e a longo prazo. Mas são as mais difíceis de investigar.

5. Quais as principais dificuldades que o psicólogo encontra na compreensão e controlo da Dor do paciente?
Em princípio, as dificuldades do psicólogo no que respeita à compreensão da dor do paciente têm a ver com a aludida idiossincrasia e subjectividade da expressão da dor.
Na prática, a maioria dos psicólogos já partem com um ideia preconcebida sobre as causas da dor e as suas manifestações sintomáticas. Uns optam pela via mais organicista, outros pelas explicações biopsicossociais, etc. Dada a complexidade da dor, as dificuldades devidas à sua compreensão encontram sempre um aconchego nas ideologias da causalidade.
No que nos diz respeito, para melhorarmos a nossa compreensão da dor, e ajudarmos o paciente a estruturar a sua compreensão, utilizamos normalmente os instrumentos de auto-avaliação ditos subjectivos, como termómetros de intensidade e balanças de controlabilidade (Joyce-Moniz e Barros, idem). O paciente reporta a sua subjectividade da dor dentro de parâmetros de utilidade clínica, que se podem quantificar, qualificar e comparar rápida e facilmente.
A dor representa na psicologia o exemplo mais perfeito de que a auto-avaliação deve prevalecer sobre a avaliação (de outrem).
E a auto-avaliação para merecer o crédito dos pacientes e psicólogos tem de ser regular e continuada no tempo. Aqui também, a intervenção imediatista ou pontual é inimiga da eficácia clínica.
As dificuldades do psicólogo no que respeita ao controlo da dor têm a ver com a escolha da metodologia apropriada a cada caso. Convém, pois, aprender o que vem no menu, ou outras coisas (e.g., auto-hipnose, meditação, expressão dramática), para depois dispor de uma escolha abrangente.
Dada a sua multiplicidade causal e sintomática, o controlo da dor não joga com receita metodológica única. Sobretudo quando se visam objectivos de eficácia a médio e a longo prazo.
O controlo da dor, em doenças crónicas e terminais como nas perturbações somatoformes com queixas de somatização (psicopatologia), implica muita , determinação, paciência e persistência dos interlocutores: paciente e psicólogo. O confronto da sintomatologia da dor requer, pois, tanto o possível como o impossível de ambos.
Talvez não haja domínio mais ingrato em toda a intervenção psicológica.

6. De que forma podem a família e os amigos contribuir para ajudar o paciente a lidar com Dor?
Quase todas as metodologias do menu referidas são susceptíveis de serem utilizadas pela família ou os amigos, parcial ou totalmente, para ajudar o paciente no controlo da dor (e.g., controlo de estímulos, relaxamento, distracção, auto-sugestão por transformação, programação de contingências ou actividades e racionalização). Em termos gerais, em doenças agudas, crónicas ou terminais, a família tem de aceitar o princípio, ele mesmo doloroso, que o paciente tem de viver com as dores.

Como em muitas outras situações clínicas, o psicólogo pode, assim, ser bem mais útil como treinador das pessoas mais presentes na existência do paciente/cliente.
E tem de ser um interlocutor atento e descomplexado do médico e outros técnicos, que recorrem a metodologias mais imediatistas e/ou mais duráveis para o controlo da dor. Não esquecendo, pois, que a química ou a física podem ser extraordinariamente eficazes na sintomatologia multiforme da dor.
A psicologia tem habitualmente de se contentar com o papel de recurso complementar à medicina. Embora esta utilize por vezes metodologias auto-sugestivas próprias da psicologia como a do placebo como analgésico.

Nota: A Direcção da Peritia – Revista Portuguesa de Psicologia agradece publicamente ao Professor Doutor Luís Joyce-Moniz pela disponibilidade demonstrada, desde o primeiro contacto, para a realização desta entrevista, que em muito honra a nossa publicação.

Entrevistas anteriores

Dra. Diana de Sá
Licenciada em Psicologia pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
Mestre em Psicologia, área de Avaliação Psicológica, Aconselhamento e Reabilitação, pela Universidade de Coimbra.
Bolseira de doutoramento do German Research Foundation e do The Netherlands Organization for Scientific Research, no Grupo de Investigação Internacional Psiconeuroendocrinologia do Stress, Departamento de Fisiologia Clínica, Instituto de Psicobiologia, Universidade de Trier.
Membro da SPR (Society for Psychophysiological Research) e  da EBBS (European Brain and Behaviour Society).

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Dra. Daniela Figueiredo
Licenciada em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
Doutorada em Ciências da Saúde pela Universidade de Aveiro.
Docente na Escola Superior de Saúde da Universidade de Aveiro.
Membro da Comissão Científica do Mestrado em Gerontologia da Universidade de Aveiro.

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Dr. Duarte Nuno Vieira
Presidente da Academia Internacional de Medicina Legal (IALM), da Associação Internacional de Ciências Forenses (IAFS), da Associação Mundial de Médicos de Polícia (WPMO) e do Conselho Europeu de Medicina Legal (ECLM).
Professor Catedrático de Medicina e de Ciências Forenses da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.
Director do Instituto Nacional de Medicina Legal (INML).

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Dra. Margarida Pedroso de Lima
Professora associada da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra.
Licenciada em Psicologia pela Universidade de Coimbra.
Doutorada em Psicologia do Desenvolvimento (Personalidade na idade adulta) pela Universidade de Coimbra.
Directora da revista Psychologica (da FPCEUC).

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