1. Na sua concepção actual, como podemos definir a Dor?
Para mim, a melhor definição de dor é totalmente tautológica e inútil de um ponto de vista formal: a dor é o que cada um pensa e sente, ou sente e pensa, como sendo a dor.
É claro que esta idiossincrasia que leva à anulação do conceito coloca enormes problemas à maioria das psicologias aplicadas dirigidas precisamente para a interpretação e explicação causal de tudo e do seu contrário.
Em termos práticos, proponho uma definição operacional: a idiossincrasia da experiência da dor ocupa um contínuo dialéctico que vai do tudo somático ao tudo psicológico. A dor passa assim como um joiner muito popular, para pôr em confronto outras ontologias como corpo vs. espírito, percepção vs. significação, etc.
2. A Dor é uma experiência que deve ser vista como um todo biopsicossocial. Qual o significado desta expressão?
Historicamente, as concepções biopsicossociais foram importantes na Psicologia, na Medicina ou na Sociologia, permitindo alargar o determinismo da dor partilhado a dois (somático e psicológico) para uma partilha a três, incluindo o social.
Este último é particularmente relevante na sua asserção cultural. Ainda no mês passado estive em países cujas gentes me explicavam que a dor é um assunto religioso.
A dor será biológica, psicológica, social, religiosa, etc. Quanto mais coisas integrarem o conceito, melhor. Trata-se de um dos raríssimos exemplos em que a quantidade alimenta a qualidade. Em psicologia aplicada, face às queixas individuais de dor é conveniente que se intervenha tendo em conta a multiplicidade da determinação e da manifestação da dor.
3. Vários autores defendem que a Dor é uma forma de linguagem. Como se explica este pressuposto?
A metáfora da linguagem como super-estrutura que pode definir e operacionalizar praticamente tudo em psicologia (e não só) é, sem dúvida, muito atractiva. Não vejo nada que me oponha à dor como linguagem. Como acho que compreendo que certas religiões monoteístas digam Deus como linguagem, e não teístas digam omnisciência (e.g., nirvana) como linguagem.
Oxalá se pudesse incluir nesta linguagem, a sua expressão efectiva, em termos de palavras, gestos, máscara facial. Há três milénios, os gregos já representavam a dor pela sua expressão mais dramática.
4. O que compete ao psicólogo fazer, nas situações em que o paciente chega à consulta com Dor e a sofrer?
O sub-capítulo que escrevemos na Psicologia da Doença para cuidados de saúde (Joyce-Moniz e Barros, 2005) sobre Controlo da Dor é o único que começa com um conjunto de desenhos para introduzir o menu mais conhecido e usado de metodologias: biofeedback, relaxamento, distracção ou desatenção imaginativa, auto-sugestão por transformação do contexto, auto-sugestão por transformação da dor, auto-monitorização reactiva da intensidade da dor, programação de contingências de confronto e disputa racional das significações da dor.
Nenhuma destas serve para o paciente que chega à consulta com dor e a sofrer. A psicologia está pouco armada para fazer face a situações de urgência de problemas ditos somáticos e somatoformes como as queixas de dor.
Mas se fosse mesmo obrigado a recorrer a medidas de urgência, diria que as metodologias possíveis deveriam estar direccionadas para a auto-sugestão por meio de relaxamento muscular, respiração, imagética e/ou expressão dramática.
Toda esta acção dentro da filosofia da psicologia aplicada de que os pequenos ganhos são sempre grandes ganhos.
Grande parte da investigação que tenho orientado nestes tempos tem a ver com estes processos auto-sugestivos, por exemplo, no controlo da dor de pacientes de reumatologia e ortopedia.
A hipnose e a auto-hipnose permanecem, contudo, as minhas metodologias favoritas, para melhoramento ou resolução de situações de dor a curto e a longo prazo. Mas são as mais difíceis de investigar.
5. Quais as principais dificuldades que o psicólogo encontra na compreensão e controlo da Dor do paciente?
Em princípio, as dificuldades do psicólogo no que respeita à compreensão da dor do paciente têm a ver com a aludida idiossincrasia e subjectividade da expressão da dor.
Na prática, a maioria dos psicólogos já partem com um ideia preconcebida sobre as causas da dor e as suas manifestações sintomáticas. Uns optam pela via mais organicista, outros pelas explicações biopsicossociais, etc. Dada a complexidade da dor, as dificuldades devidas à sua compreensão encontram sempre um aconchego nas ideologias da causalidade.
No que nos diz respeito, para melhorarmos a nossa compreensão da dor, e ajudarmos o paciente a estruturar a sua compreensão, utilizamos normalmente os instrumentos de auto-avaliação ditos subjectivos, como termómetros de intensidade e balanças de controlabilidade (Joyce-Moniz e Barros, idem). O paciente reporta a sua subjectividade da dor dentro de parâmetros de utilidade clínica, que se podem quantificar, qualificar e comparar rápida e facilmente.
A dor representa na psicologia o exemplo mais perfeito de que a auto-avaliação deve prevalecer sobre a avaliação (de outrem).
E a auto-avaliação para merecer o crédito dos pacientes e psicólogos tem de ser regular e continuada no tempo. Aqui também, a intervenção imediatista ou pontual é inimiga da eficácia clínica.
As dificuldades do psicólogo no que respeita ao controlo da dor têm a ver com a escolha da metodologia apropriada a cada caso. Convém, pois, aprender o que vem no menu, ou outras coisas (e.g., auto-hipnose, meditação, expressão dramática), para depois dispor de uma escolha abrangente.
Dada a sua multiplicidade causal e sintomática, o controlo da dor não joga com receita metodológica única. Sobretudo quando se visam objectivos de eficácia a médio e a longo prazo.
O controlo da dor, em doenças crónicas e terminais como nas perturbações somatoformes com queixas de somatização (psicopatologia), implica muita fé, determinação, paciência e persistência dos interlocutores: paciente e psicólogo. O confronto da sintomatologia da dor requer, pois, tanto o possível como o impossível de ambos.
Talvez não haja domínio mais ingrato em toda a intervenção psicológica.
6. De que forma podem a família e os amigos contribuir para ajudar o paciente a lidar com Dor?
Quase todas as metodologias do menu referidas são susceptíveis de serem utilizadas pela família ou os amigos, parcial ou totalmente, para ajudar o paciente no controlo da dor (e.g., controlo de estímulos, relaxamento, distracção, auto-sugestão por transformação, programação de contingências ou actividades e racionalização). Em termos gerais, em doenças agudas, crónicas ou terminais, a família tem de aceitar o princípio, ele mesmo doloroso, que o paciente tem de viver com as dores.
Como em muitas outras situações clínicas, o psicólogo pode, assim, ser bem mais útil como treinador das pessoas mais presentes na existência do paciente/cliente.
E tem de ser um interlocutor atento e descomplexado do médico e outros técnicos, que recorrem a metodologias mais imediatistas e/ou mais duráveis para o controlo da dor. Não esquecendo, pois, que a química ou a física podem ser extraordinariamente eficazes na sintomatologia multiforme da dor.
A psicologia tem habitualmente de se contentar com o papel de recurso complementar à medicina. Embora esta utilize por vezes metodologias auto-sugestivas próprias da psicologia como a do placebo como analgésico.
Nota: A Direcção da Peritia – Revista Portuguesa de Psicologia agradece publicamente ao Professor Doutor Luís Joyce-Moniz pela disponibilidade demonstrada, desde o primeiro contacto, para a realização desta entrevista, que em muito honra a nossa publicação.